quinta-feira, 2 de julho de 2009

DO QUE SALTA AOS OLHOS

Dedicado ao convulsivo e sarcástico riso interior e a todos aqueles que saibam dele fazer uso vez por outra. "Na sua origem o riso pertence ao domínio do diabo. Existe algo de mau (as coisas de repente se revelam diferente daquilo que pareciam ser (...) o riso do diabo mostrava o absurdo" Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento, pg.61

Ao que salta aos olhos pouco valem as explicações. Quanto mais as justificativas inconvincentes procuram agarrar-se desesperadas à razão, como náufragos a um salva-vidas, mais se perdem em um labirinto de contradições; mais tropeçam no vazio absurdo que é a quadratura do círculo e de tão insustentáveis se tornam risíveis, burlescas. As portas estão ali escancaradas e a verdade irrompe para quem quiser ver, escandalosa, exposta, translúcida.

O que salta aos olhos sequer permite a maquiagem da desfaçatez: O sórdido não se torna digno pela simples permissividade; o feio não se revela belo com a desculpa do descompromisso com as formas; o deslumbramento com os brilhos fugazes do mundo não se transmuta em ambições nobres, como um passe de mágica, pelas lágrimas lamuriosas pranteadas em nome de uma vida cercada de privações

Não há também muito que se dizer diante do que salta aos olhos. Tampouco há pelo que jurar inocência. É isso e pronto. É o império do inexorável; equação exata; é o 2+2=4. O que dizer da marca de batom deixada na cueca? Do bafômetro apontando a embriaguês? Da barriga prenhe que desponta rotunda? O óbvio é categórico: não abre concessão às dúvidas. O melhor mesmo é calar-se à espera do beneplácito que concede o esquecimento com o passar do tempo; com o caminhar incessante das horas.

O que salta aos olhos é ferida mortal, porém imediata e “aliviante”. Enquanto os indícios são doenças que se arrastam sem um diagnóstico preciso até que cheguem a um estágio terminal, a prova cabal, ao revés é letal; é a morte não anunciada; é o acidente fatal; é o tiro de misericórdia que revela a aviltante natureza humana de uma só vez e em toda plenitude de sua repugnância. Antes a dolorosa convicção que o espicaçar tormentoso da dúvida. Antes a desesperança abrupta e peremptória que o veneno da persistência contumaz.

Ah, enxugue as lágrimas espúrias que tens derramado pelos mortos, o que os olhos destes viram não podem mais testemunhar; não desperdice rouge e blanche tentando cobrir as manchas de seu passado oculto; não aumente o volume das músicas dos anos 80 de seu MP3 ao máximo, mesmo que as vozes se calem, os olhos vêem,os olhos vêem, os olhos vêem. Não, não hei de tecer aqui considerações aprofundadas do que salta e do que não salta aos meus olhos, tampouco cabem lamentosou imprecações. Se d’antes as coisas não saltavam tanto era apenas porque a visão andava um tanto quanto embaçada com a poeira do mundo. Não há retórica capaz de tornar verossímil o rocambolesco. De Munchausen erguendo-se do pântano puxando os próprios cabelos, cabe-nos apenas rir, quá, qua, rá, quá.

8 comentários:

  1. Punk punk violento ... (rsrs!)
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    E acho que eu já vi,aliás, senti, esses teus risinhos interiores
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    Ficaram legais os dois últimos parágrafos (os que eu ainda não tinha visto).
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    Adiós!

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  2. Caríssima pupula, este riso a que você se refere é o verdadeiro riso. Peço licença para transcrever aqui um trecho retirado do livro "O RISO DO LIVRO E DO ESQUECIMENTO" de MILAN KUNDERA, que resume bem o que quero dizer:

    "As coisas são privadas de repenpe do seu sentido, do lugar que lhes é atribuido na ordem esperada das coisas (um merxista formado em moscou acreditar em horóscopo), provocam-nos o riso. Na origem, o riso é, portanto, do dominio do diabo. Tem algo de maléfico (as coisas revelam-se de repente diferentes daquilo por que se faziam passar) mas também tem em si uma parte de alívio salutar(as coisas são mais leves do que pareciam, deixam-nos viver mais livremente, cessam de nos oprimir sob a sua séria austeridade).
    Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do Astucioso, foi tocado pela admiração. (...)O anjo percebeu claramente que aquele riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade da sua obra. (...). Como não era capaz de inventar nada sozinho, macaqueou o adversário. (...) Enquanto o riso do diabo designava o absurdo das coisas, o anjo queria, pelo contrário, regozijar-se com o fato de tudo aqui em baixo estar bem ordenado, sabiamente concebido, ser bom e pleno de sentido. (...). E o diabo olhava para o anjo que ria, e ria-se ainda mais, tanto melhor e tanto mais francamente quanto o anjo que ria era infinitamente cómico."


    Acho que vou fazer um enxerto no texto e acrescentar esta passagem. Bjs

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  3. Bernardino Greco3 de julho de 2009 16:05

    Amigo El Cabongue. Fico realmente impressionado com a sua capacidade de escrever, demonstrando um perfeito domínio da linguagem e, mais, um extremo senso de oportunidade na escolha dos temas.
    Parabéns amigo. Seu texto merece não menos que nota 10.
    Bernardino Greco

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  4. É por isso que precisamos não simplesmente "olhar" a vida e os acontecimentos ao nosso redor, mas sim "olhar" e "ver", como diria Saramago, para "além do que salta aos olhos" e não ficar só na superficialidade que nos oferece o óbvio. Creio que foi isso, essa maneira rasa de enxergar, que norteou, por exemplo, a decisão do STF em inconstitucionalizar a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão do jornalista, pois o verdadeiro jornalismo não se faz simplemeste de colunismo social e previsão do tempo, esse é o estereótipo que criam aqueles que criticam a profissão fazendo uso de uma visão sem profundidade sobre o funcionamento social.

    Obrigada pela visita e seja sempre bemvindo às discussões!

    Abs!

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  5. Eu vim aqui pra te agradecer o comentário no meu blog. Queria te dizer que o amor pode virar ódio sim.. como diria a xuxa "..tudo pode ser.."! risos.

    Mas com certeza é mais fácil ter ódio visceral, se vc já teve amor, são sentimentos próximos sabe? Quem ama tbm odeia em algum momento. E o amor é um verbo que não se conjuga no passado.

    bjs

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  6. é meu caro amigo só nos resta rir mesmo
    qua qua qua qua como diriam os patos!

    não aumente o volume das músicas dos anos 80 de seu MP3 ao máximo, mesmo que as vozes se calem, os olhos vêem,os olhos vêem, os olhos vêem (tudo essa parte pra mim!)

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  7. ***tem texto novo e teu no meu ...***
    (acabei de terminar)

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  8. Seu texto é forte e incisivo. Tem uma agilidade interssante. Detesto elogios vazios, assim, entenda meu comentário como uma forma de deixar claro que gosto do seu estilo.
    Respondi ao seu comentário em meu blog. Obrigada pela visita.

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