quarta-feira, 19 de março de 2014

A volta dos Milicas: saída pela direita ou pela esquerda?





Sergio Buarque chamava o brasileiro de homem cordial, eu, por outro lado, prefiro chamar de "menino do buchão". Criança tola, maniqueísta, dada aos extremos. É uma Seleção que dá show de bola, ou apática, assiste a um Zidane ganhar a Copa dando um baile. Criança criativa, inteligente, mas emocionalmente instável pedindo seu marshmallow ao “tio” impacientemente. 

Neste sentido quando vê a esquerda engendrando sua teia ideológica e direcionando o Pais para a "ditadura do proletariado" ( objetivo institucional de qualquer partido que se diz socialista) , perde a fleuma e tem um “piti”. Ato contínuo, busca apoio em seu antagonista lógico: a extrema direta. Surgem assim skinheads exibindo suas tatuagens de suásticas; bufões bolsanaristas; novos capitães nascimento bradando suas teses sanguinárias sobre bandido morto, Âncoras de jornal convocando beatas para sua marcha e os eternos saudosistas da ditadura militar. "Ah na época dos militares em que a direita governava o Pais isso não acontecia" afirma a velha senhora. Daí me vem a pergunta “e quem foi que disse que os militares que assumiram o poder no golpe de 64 eram, de fato, de direita?”. Vamos lá, qual foi o político “de direita” que os milicas entronaram no poder assim que assumiram? Nenhum, ora. Militar não é de esquerda ou de direita, militar é militar. Só se você entender “direita” como tudo aquilo que combate a “esquerda”. Nem me venha argumentar também que é de direita pois foram financiados pelo USA, ora, até Bin Laden foi.

Outro ponto que me parece interessante é a associação feita hoje entre nacional-socialismo e a direita, quando o próprio Fuher em várias ocasiões assumiu que desenvolveu o nazismo tendo como ponto de partida as idéias de Marx e Lênin. De qualquer maneira pouco importa se ditadura de direita ou de esquerda, toda ditadura é tão parecida. Pergunte as centenas de milhões executados por Che, Lênin, Stalin, Mao, e outros companheiros se lhes dá algum alento saber que morreram por uma "causa maior"? Será que morrer no Riocentro ou Guararapes tem tanta diferença assim?

De mais a mais, os contornos que separavam ambos os lados não parecem mais tão sólidos como outrora, afinal,  o que é ser de direita ou de esquerda hoje? Será que esta discussão ainda passa pelo maior ou menor grau de intervenção na economia, ou assumidamente está mais relacionado a questão dos valores? 

Se você ainda crê que a questão da direita e esquerda tem a ver com o binômio intervencionismo- liberalismo vai ter que me explicar porque o General Geisel, por exemplo, foi um dos maiores criadores de estatais e defensor da intervenção na economia e é chamado de direita.; Vai ter que me explicar porque o sucesso econômico do governo petista no Brasil se deveu a praticamente repetir a estratégia neoliberal de seu antecessor, FHC; Vai ter que me explicar como a China comunista empresta dinheiro a juros pro Tio Sam.


Se por outro lado disser que ser de esquerda significa buscar reformas sociais; ser a favor da defesa das minorias e das liberdades individuais, vai começar a se dar conta que tem muita gente de “esquerda” que nada tem de “esquerda” e muita gente “de direita” que nada tem “de direita” e ai a discussão, sem muito sucesso, volta de onde partiu.


Mais prático parece ser o critério criado pelos próprios militantes de esquerda e difundido aos quatro canto nas redes sociais como técnica digna de Goebbels. Direita, é tudo aquilo que está entre a esquerda e o Poder, única meta que lhes restou depois do fiasco dos regimes comunistas espalhados pelo mundo.  Nas eleições presidenciais brasileira, por exemplo, Dilma, candidata a reeleição é "de esquerda", todo o resto : Marina, Aécio, e Joaquim Barbosa, que sequer tem partido ou é candidato, são todos “de direita". Resumindo, direita é tudo aquilo que enche o saco da esquerda, porque se tem uma coisa que os camaradas odeiam é ser contrariados, afinal, democracia é aquela coisa pequeno burguesa criada pelas elites gregas.

domingo, 18 de novembro de 2012

DIAS TOFFOLI, FOUCAULT E A BAILARINA FORA-DA-LEI


 Esta semana, Dias Toffoli Ministro do STF referiu-se às penas restritivas de liberdade aplicadas ao núcleo financeiro do mensalão como dignas do período medieval, uma vez que os crimes praticados pelos réus, quais sejam: quadrilha, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, etc. não seriam crimes assim tão graves, cuja periculosidade autorizasse tão perniciosa segregação.

A bem da verdade o ministro Toffoli, ex advogado do PT e ex assessor de José Dirceu na Casa Civil, apenas endossou a frase infeliz proferida dias antes pelo atual Ministro da Justiça, Eduardo Cardoso. Dizia o Ministro que seria preferível morrer a ir para a cadeia no Brasil, em clara alusão as penas de prisão aplicadas a José Dirceu, dentre outros réus envolvidos na ação penal nº 470.

Confesso que tão logo tais declarações ganharam a mídia, algumas questões me causaram perplexa curiosidade, como para que serve a pena de prisão no Brasil? Para o Ministro do STF, quem deveria ir para cadeia? E por último, por que diabos as mazelas do sistema carcerário só estão sendo discutidas agora ?

Pra começo de conversa creio que seja claro para todos a falência do sistema carcerário brasileiro. Nisto andou muito bem o Ministro Eduardo Cardoso quando comparou a penitenciária brasileira a uma verdadeira masmorra. Com efeito, a lei mais desrespeitada no Brasil é sem duvidas a Lei de Execuções Penais. Presídios superlotados, direitos civis a torto e a direito suprimidos. O encarcerado é um quase-cidadão dentro da lógica mesquinha das estruturas de poder brasileiras. Conquanto isto seja verdade inconteste, o que não ficou muito claro em minha cabeça é:  se o Ministro Eduardo Cardoso é Ministro da Justiça, portanto, autoridade competente para promover a mudança do sistema penitenciário , por que até agora não o fez ? Certamente porque preso não vota.

Mas deixemos de lado por hora o Ministro da Justiça do governo do PT para tentarmos compreender o inflamado aparte do Ministro Toffoli, cuja companheira, advogada, fez a sustentação oral em 2007, defendendo alguns desses mesmo réus.

Ora, a primeira conclusão imperiosa a que temos que chegar analisando suas declarações é a de que, segundo o Ministro Toffoli a prisão é coisa, como ele mesmo disse, medieval, e esta coisa medieval serviria apenas para impedir delinquentes perigosos de cometer novos delitos. Delinquentes perigosos, segundo a cartilha do Ministros são aqueles que praticaram “crimes de sangue”, ou seja,  o assaltante de banco; o homicida; o trombadinha.  Os três “ps” : preto, pobre e puta.

Não duvido que se estivesse  na Roma antiga o Ministro concluiria “aqueles que não são da minha estirpe. Os que não  gozam como eu da cidadania romana

No afã de defender tão odiosa tese, citou até Michel Foucault e usou como exemplo a banqueira mensaleira Kátia Rabello. “Que perigo pode causar uma bailarina ?” indagou indignado.

Não, Sr. Ministro, por mais que isso lhe cause estranheza, a pena de prisão não lembra em absoluto as ordálias e penas medievais, tais como empalamento, crucifixão, enforcamento, tortura, fogueira. Bastaria ler a introdução do livro Vigiar e Punir, de Foucault, aquele que V.Exa nos sugere ter lido, para perceber o quão distante da realidade histórica estão suas tendenciosas conclusões. A bem da verdade, a pena de prisão, à época, representou grande avanço na aplicação das penas, uma conquista do pensamento iluminista.

Por outro lado,  não consigo encontrar outro adjetivo senão “vergonhoso” para definir sua citação de Foucault , a qual supostamente justificaria  a ausência da pena prisão para este tipo de delinquência.

Bastaria uma leitura um pouco menos superficial da obra do filósofo para compreender que o que ele criticava não era exatamente a pena de prisão, mas a utilização do cárcere como forma de controle social impingido pela máquina punitiva estatal, ou seja, a segregação seletiva e higienizante, exatamente nos moldes defendidos por V.Exa : cadeia para pobre, preto e puta.

Em um Estado Democrático de Direito, Sr. Ministro, o cárcere foi reservado para os pretos, pobres e putas, mas também para os ex-guerrilheiros e para as bailarinas fora-da-lei.  E por que nao dizer? Até para os magistrados, uma vez que também estes praticam crime de prevaricação quando demonstrada a sua tendenciosa parcialidade no processo.

Se é fato que a democracia brasileira de tão incipiente ainda engatinha. Oxalá chegue o dia em que ela alcançará a maioridade. Neste dia, nossas cadeias, como nunca antes na história deste País, abrirão vagas até para ex-presidentes. 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sonhos esquizofrênicos de Alice


Ela me entorpece com seu ópio, meus dentes rangem, minha boca seca, meu coração dispara frenético e descompassado. Em cada beijo parece me enfiar na boca doses de anfetamina.  Cada palavra sua me convida a perder-me ainda mais atrás de um coelho branco fugidio. Eu por outro lado lhe ofereço o precipício, antídoto para a sua vida de comercial de margarina, afinal a imperfeição é algo demoniacamente sedutor. Em seu mundo nonsense eu não sou real, ora personagem cafajeste saído de algum filme noir; ora malandro cantado nalguma música do Chico; ora Romeu shakespeareano. Não me importo. Se entre uma fumaça e outra de meu cigarro e algumas palavras ao pé do ouvido ela faz questão de mostrar-me o quanto eu a deixo molhada, de que me valeria tanto a tal realidade? Não, meu castelo são escuras masmorras; meu trono é ambulante; minha eternidade é furtiva; meu gozo é mudo. Ela me diz que aqui eu sou El Rey, enquanto eu, titubeante e sem ter o que dar em troca, lhe ofereço minha patética fidelidade de mundo real. Definitivamente não somos convencionais. Se em seus dedos brilham esmeraldas, diamantes e rubis de pouco vale tudo isso aqui em seu mundo de fantasias. Talvez sua máscara de colombina reluza mais que todo o ouro de Salomão. Ah como o relógio dos amantes é prodigioso, transforma minutos em horas e horas em segundos. Alice me pergunta, assim, de supetão como se anunciasse o final do mundo, o que faria se tivesse poucos dias de vida. Digo que viveria cada minuto de forma a trazer comigo os breves átimos de felicidade. Respostazinha capciosa mas sincera. A mais pura sinceridade cínica dos cafajestes. A mais ingênua sinceridade cega dos enamorados que diante da beleza do precipício esquecem por completo a dor da queda. Não lhe ofereço rosas; não a levo de mãos dadas ao cinema, tampouco o happy end das comédias românticas. Possuo a estúpida liberdade dos tolos. Bêbado, olho as bundas sem culpa ou remorso. Ela complacente, finge me entender. Sou Ulisses acorrentado imune aos canto das sereias ou Werther com as pistolas em punho, pronto a estourar os miolos? Não sei, em seu mundo ela é a tirana cujas regras me impõe. Por vezes sou o adolescente imberbe com suas poluções   noturnas sonhando com a garota da escola. Em outras me pergunto se seria verdadeiramente feliz se a visse de bobe nos cabelos vendo a novela das oito. Temerosa da resposta ela se pergunta se seriam meus os olhos de tragédia anunciados pela boca de Cassandra. Eu sei, mas não respondo, apenas sigo dançando conforme sua música, mas ah, como é doce essa melodia. Que me importa com quem está a batuta? Como esposa ciumenta segue todos os meus passos e me pergunta dos amores passados. Como loba esfaimada cheira minha roupa e com os olhos embotados diz que com sua boca quer me saciar. Se escrevo quase a expor minha musa é tão -só porque todos os apaixonados são em essência vaidosamente exibidos, fazem questão de falar aos quatro ventos da pessoa amada.Não pretendo decifrar os mistérios do amor e nem antever o tempo dos amantes. Apenas vivo, vivo,vivo, enquanto Alice segue construindo o nosso mundo onírico.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Divisão do Pará, 2º parte: aspectos formais e políticos




No dia 11 de dezembro deste ano haverá um plebiscito pelo qual a população opinará sobre o desmembramento do Estado do Pará e formação de mais dois novos Estados Membros, o Estado do Carajás e o Estado do Tapajós.

Muito se tem propagandeado acerca das vantagens sociais e sobre o desenvolvimento que experimentará as regiões do Tapajós e Carajás; que estão alijadas atualmente de políticas públicas; que são filhos enjeitados e patatipatata. Todavia, desviando-se de questões tormentosas, tem-se colocado em panos quentes alguns aspectos formais e políticos deste processo de desmembramento, como se a vontade do bloco separatista fosse o único fator decisivo à criação ou não desses novos  entes federativos.

Gostaria neste post de tratar sobre alguns desses aspectos indigestos relegados a segundo plano.

Em uma primeira análise meramente formal, podemos afirmar consoante a CF/88, art.18, § 3º, que são requisitos deste processo: 1) aprovação da população diretamente interessada por meio de Plebiscito; 2) a aprovação do Congresso Nacional por meio de Lei complementar. Analisado o § 3º em conjunto com o § 4, cujo conteúdo trata da formação dos municípios, não há qualquer absurdo em acrescentar a esses requisitos mais o estudo de viabilidade sócio- econômica.

No que se trata da aprovação da população diretamente " interessada", a CF/88 não deixou tão claro assim, quem exatamente seria esta tal população. Na hipótese em tela, diferente do que perfilhava os separatistas, o TSE determinou que população interessada deveria  compreender toda a população do Estado do Pará conforme prevê a Lei 9.709, de 1998. Interessante notar que no final das contas, caso haja o fracionamento do Estado e decorrente criação de mais dois, os Estados do Tapajós e Carajás, quem pagará o preço arcando com as despesas do banquete é a União, ou melhor, todos nós brasileiros contribuintes.

Calcula-se que o governo federal terá que desembolsar R$ 4,2 bilhões por ano para cobrir as despesas de Carajás e Tapajós. Tão-só a realização do Plebiscito custará  5,5 milhões de reais aos cofres públicos. É, rapadura é doce mas  não é mole, não.

Não à-toa a PEC nº 47/2007, aprovada este ano na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, pretende mudar esta orientação determinando que nesta espécie de Plebiscito toda a população nacional seja chamada a manifestar seu voto.

Nesta mesma esteira foi que o Senador Eduardo Suplicy representado pelo jurista Dalmo de Abreu Dalari ajuizou no TSE hoje, dia 14 de julho, ação que reivindica a todos os brasileiros o direito de votar no dia 11 de dezembro. Segundo o Senador  "Para criação de novas unidades políticas é necessário, jurídico e justo ouvir toda a população interessada. Não há na lei nada que diga que tem de se ouvir apenas a população do estado. A criação de novos estados afeta os direitos políticos de todo o povo brasileiro, além de criar um ônus financeiro que também será arcado por todo o povo brasileiro”. 

Particularmente, observado apenas o rigor técnico, não comungo desta interpretação elástica que se  pretende emprestar ao dispositivo constitucional que trata do assunto, uma vez que a população nacional embora pague a conta terá apenas um interesse "indireto". Lembremos que não existe palavras inúteis na Constituição.

Sem embargo a isto, creio que seria uma escolha mais legitimamente acertada se este tipo de decisão fosse realizada apenas pelos naturais do próprio Estado do Pará. Contra esse argumento os separatistas afirmam que, independente da  naturalidade, também contribuem com a arrecadação de impostos do Estado é por essa razão tem toda legitimidade o seu voto. Naturalmente que, entre um plebiscito votado por naturais de outros estados da federação que moram no Pará e outro por toda a população nacional, julgo sobremaneira mais justo o segundo, uma vez que também eles contribuirão para a "vaquinha". 

Um outro ponto que se tem esquecido de mencionar, talvez levianamente, é a aprovação do Congresso Nacional. Digo levianamente pois esta aprovação, como ato político, é discricionário, ou seja a depender apenas da conveniência e oportunidade dos membros da casa. Aqui a meu ver reside um ponto que tem sido tergiversado em toda discussão sobre este tema espinhoso. " Aprovada a divisão em Plebiscito o Congresso estará obrigado a aprovar por meio de Lei Complementar ? "

Antes de enfrentar propriamente o assunto, gostaria de tratar de outro tema consentâneo à divisão: a representatividade política das regiões no Congresso Nacional. O sistema representativo insculpido na CF,  foi criado para  Estados mais populosos como São Paulo elejam no máximo 70 Deputados Federais, e Estados menos populosos 8 Deputados Federais, cada. O senado, como representa os Estados e não a população elege, segundo esse sistema, 3 Senadores cada.

Pois bem, não é preciso ser nenhum gênio para perceber que o sistema atual da CF/88 acaba   por prejudicar Estados mais populosos, cuja representação se levássemos em conta apenas a proporcionalidade numérica populacional, seria bem maior.

Com a criação de mais dois novos Estados na Região Norte esta disparidade se acentuaria. Pra começar, com 9 estados, ou seja, com 27 Senadores, a Região Norte se igualaria a Nordeste em numero de Senadores, sendo que cada Senador nortista representaria em torno 600 mil pessoas, menos de um terço da representatividade de um senador nordestino.

Doutra banda, pensemos em Regiões como o Centro-Oeste. Com a divisão a bancada do Norte somaria 72 deputados federais. Teria assim 76% a mais de cadeiras (31 vagas) do que esta região, sendo que sua população não chega a ser 13% maior do que o Centro-Oeste.

Todos sabem onde aperta o sapato, com o Congresso esta regra não funciona diferente. Será que há interesse no desmembramento do Estado do Pará a justificar uma aprovação da casa caso haja uma aprovação plebiscitária no dia 11 de dezembro? Se houver, será que há interesse cujo quorum represente a maioria absoluta, quorum de Lei Complementar?


Pergunta interessante é caso haja uma divisão como se fará para compatibilizar  mais 16 deputados com a regra prevista na lei complementar de 1993 que diz que a Câmara pode ter, no máximo, 513 deputados?

Já se foi dito que o Congresso respeitará a decisão do Plebiscito caso seja ela "expressiva". Venhamos e convenhamos, mesmo que essa vitória expressiva digna de almirante suíço  venha a acontecer, (Até agora duas pesquisas foram feitas, IBOP, 64%, não, 27% sim, e VOX POPULI, 42% não, 37% sim) não podemos esquecer a pressão da opinião pública nacional, que não se conformará em esvaziar os bolsos assim tão generosamente como bons  samaritanos.

O fato é que aqueles que esperam uma futura divisão do Pará para engordar seu gado estão a esperar sapato de defunto.

 Então a pergunta que não quer calar, a quem interessa essa divisão? Não temo de pronto  em responder : à corrupção, ao clientelismo político, ao desmatamento desregrado, à violência agrária.

Por último, mas não menos importante, é o estudo de viabilidade que até esta data não ocorreu, pelo menos um estudo mais atual.  É certo que o § 3º não tratou especificamente da viabilidade para a formação de novos Estados, mas somente à criação de novos Municípios. Todavia é forçoso concluir, que se é necessário para a formação de novos municípios, com muita mais razão deve-se utilizar para a formação dos Estados, composto que são de vários Municípios.

Para garantir esse pressuposto o Deputado Estadual Celso Sabino chegou a impetrar Mandado de Segurança perante o STF para impedir a realização do Plebiscito, argumentando que antes deveria ser realizado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicadas )  o estudo de viabilidade sócio-econômica que orientasse as populações envolvidas.

Neste ponto é que o discurso se aproxima mais ainda do realismo fantástico, porque muito embora não tenha sido realizado este estudo atualizado, os interessados na divisão têm puxado a sardinha para o seu prato e veiculado informações levianamente favoráveis a si próprios. Auxiliados pelo marketeiro Duda Mendonça, nelas os Estados do Tapajós e Carajás são mostrados como promissoras futuras unidades da Federação. 

Curioso é que o mesmo Duda Mendonça em tempos idos lutou contra a divisão de seu Estado natal, a Bahia. Mais curioso ainda é o fato de ele ser atualmente criador de gado no sudeste do Estado.

Mas uma coisa é certa, não adianta tentar sentar cachorro em banco, porque o rabo não deixa. Conquanto os futuros Estados levem Belo Monte e as minas de Carajás deixando o Estado mãe a ver navios, estão longe de possuir toda esta auspiciosidade que pretendem ostentar. 

Cumpre esclarecer desde já que a realidade é bem menos bonita do que quer fazer crer a turba sectarista, cuja ganância e falácia não teme em manipular as massas e lança-las em uma luta inglória e temerária. Curioso que vez por outra usem o exemplo do Estado de Tocantins para justificar uma possível divisão. Chega a ser emblemática esta comparação, uma vez que o Estado é o 4º mais pobre do Brasil. 

A bem da verdade o estudo de viabilidade sócio-econômica já foi realizado pelo IPEA em outros tempos (2008). Este estudo ficou conhecido como estudo Boeuri. O que ficou manifestamente demonstrado neste estudo? O óbvio ululante: que nenhum dos futuros Estados são viáveis.

Seria como adolescentes que querem sair de casa e continuar bancados pela mesada dos pais.

Segundo o estudo Boeuri o Estado do Tapajós com um (PIB de 6,4 bilhões), já nasce sendo o Estado mais pobre do Brasil, perdendo apenas para a prima Roraima (PIB de 4,8). Carajás apesar de ter um pouco mais de sorte, ou l'argent mesmo (PIB de 19,6 bilhões), já nasce como o Estado mais violento do Brasil. Segundo dados do Ministério da Justiça (2008) a taxa de homicídios dolosos de Carajás seria de 68,1 assassinatos por ano para um grupo de 100 mil habitantes. Só para entender este índice, Alagoas, considerado o Estado mais violento possui (66 homicídios por 100 mil habitantes). A taxa de homicídios em Carajás seria duas vezes maior do que a do Estado de Rio de Janeiro (33 por 100 mil) e seis vezes a de São Paulo (11/100 mil). Os homicídios em Carajás também superariam Honduras, o país mais violento do mundo, que teve 58 assassinatos para 100 mil habitantes em 2008.


Se não bastasse todos esses índices o pior é que ambos os Estados gastariam um número muito elevado de seu próprio PIB para se manter (claro, isso se eles fossem se manter sozinhos e não bancados pela mamãe União). Tocantins gastaria 44% de seu PIB e Carajás 19 %.  A média dos Estados brasileiros está em 12%.

Atualmente a IDESP e a UFPA estão fazendo um estudo parecido e já adiantam alguns índices. O Pará ficaria com 56% do Produto Interno Bruto (PIB), Carajás com 33% e Tapajós com 11%.Ou seja, índice muito aproximado ao de 2008 feito pelo IPEA.


Seria cômico se não fosse trágico, mas existem mais 13 propostas de separação sem quê nem porquê transitando no Congresso. Posso até não ter a fórmula para regiões como as de Tapajós e Carajás saírem da miséria, mas uma coisa é certa: não é aumentando o número de políticos e assessores que isto vai mudar. 


Verdade seja dita. Se todo esse dinheiro gasto com a divisão fosse investido nas regiões afetadas com a divisão e se toda essa energia fosse empregada para cobrar dos políticos eleitos(também por essas regiões) o emprego adequado das verbas públicas, seria infinitamente mais produtivo a todos. O grande problema é que isso não interessa. Não interessa aos novos políticos que se elegerão representando os novos Estados; não interessa aos seus parentes que serão empregados nas futuras repartições públicas; não interessa a elite que financiará a campanha desses novos políticos, enfim...O pato é sempre o mesmo (o povo) só o que muda é o tucupi.





terça-feira, 12 de julho de 2011

Divisão do Pará 1º parte : a ocupação da Amazônia.

   
      
                Nunca esqueci de uma cena do filme "Bye, bye Brasil" dirigido por Cacá Diegues. Devia ter meus 16 ou 17 anos quando a vi.  Talvez, na época, tenha gostado tanto porque parte do filme fora rodada aqui na Região Norte. Até mesmo o palácio dos bares, um inferninho da época, foi retratado no filme. Por outro lado, como não lembrar da canção do Chico dizendo que tinha pego uma doença em Belém? Pois bem, na cena a fantástica Caravana de saltimbancos Rolidei (SIC) cruzava a transamazônica entre caboclos e arraias rumo ao Eldorado, à suposta Xangrilá amazônica,  que se chamava Altamira. "Vão para Altamira" dizia o caminhoneiro, "Lá vocês irão encontrar o paraíso e ficarão ricos".
                 Obviamente o filme nunca passou de uma obra de ficção, até porque Altamira sempre esteve muito longe de ser o paraíso, mas de certa forma, representa muito bem como foi a ocupação da Amazônia. 
                   A primeira fase da ocupação da Amazônia podemos chamar de a tentativa . Logo no início não foi tão fácil vender a Amazônia assim como tirar bala de criança. A promoção praticamente se deu a preço de custo, afinal, era época da guerra e a empresa estava apenas no começo. Seus produtos sequer haviam alcançado boa cotação no mercado. Um em particular parecia agradar aos patrões acionistas diretores lá do Tio Sam. E lá foram tantos bravos arigós, soldados da borracha empunhando suas facas de seringa. Marchando contra o terceiro reich e seu Führer; marchando para guerra; marchando para a morte no inferno verde; marchando para o descaso e para o esquecimento. As más línguas dizem até que morreram afogados, pouco acostumados que estavam com tanta água.
                  A segunda fase se deu anos mais tarde quando os milicas, não satisfeitos em vender a economia para os gringos e para o FMI, resolveram descolar mais um troco loteando a Amazônia.  Chamaremos de a grande promoção. Aos quatro cantos seus marketeiros divulgaram sua campanha publicitária. "Integrar para não entregar" era o slogan da propaganda viral. Nem precisa dizer que dessa vez a promoção foi um sucesso. Vendeu mais que churrasquinho de gato em dia de RE X PA.
                   Aceitava-se qualquer cartão; parcelava-se em até 62 duas vezes; podia-se comprar por uma pechincha no Groupon e Peixe Urbano; Gol e Tam nem cobravam a passagem de ida.
                Aos poucos a "ordem e progresso" foi finalmente chegando àquela região tão inóspita e selvagem. Campos e mais campos de floresta iguais a centenas de milhares de Maracanãs deram lugar às plantações de soja ou à agropecuária; toneladas e mais toneladas de madeira puderam ser industrialmente aproveitadas; estradas abertas entre as matas; nosso minério finalmente pode ser adequadamente explorado e mandado ao exterior.; finalmente aparecemos na mídia como no assassinato da irmã Dorothty e no massacre de Eldorado. Era o milagre na "terra sem homens"
                Agora finalmente chegamos ao ápice, a terceira fase: o grande prêmio. Ora, depois de lotearem e venderem a preço de banana só resta uma coisa a ser feita para se completar a venda : passar a escritura para o nome dos novos ocupantes.  "Para vigo me voy" será que ainda cabe mais um saltimbanco na caravana Rolidei????????



terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tiririca : sobre política, palhaçada e analfabetismo


 O palhaço Tiririca, eleito com mais de um milhão de votos e tendo como slogan as frases: "Vote Tiririca, pior que tá, não fica" e "O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto", atualmente teve sua candidatura contestada pelo MPE/SP segundo o argumento, levantado primeiramente pela Revista Época, de que faltaria ao Deputado condição de elegibilidade.

Confesso que não entendi muito bem se o candidato seria inelegível por conta de ser analfabeto ou por ser palhaço???? Pelo que me consta parece ser regra que os candidatos sejam ou  analfabetos ou palhaços, quando não, ambos.

Palhaços são tão comuns nas campanhas eleitorais que o horário eleitoral gratuito invariavelmente nos faz rir mais que os programas que se destinam a este propósito. Fico esperando as eleições iniciarem para descobrir os novos personagens humoristas que nos brindarão com suas atuações cômicas geniais dignas de Chaplin e Mazzaropi.

Quem diria, por exemplo, que candidatos tão carrancudos e linha-dura como a Dilma Rousseff teriam uma veia cômica tão forte. Que Didi, Casseta e Planeta, CQC que nada!!! Atualmente nada me fez rir mais que a dama de ferro dizendo pela TV que todas as doações de campanha do PT são registradas.

Política e palhaçada estão tão ligadas quanto as sobrancelhas da Malu Mader.

Como não lembrar então do bizarro Enéas Carneiro, Deputado Federal mais votado da história brasileira, e de seus planos armagedônicos mirabolantes de construção da primeira bomba atômica genuinamente brasileira. Digam se precisamos de desenhos animados para nos fazer rir, quando temos um ratinho "Cérebro" no horário eleitoral, com seus planos de conquistar o mundo???

Para que ir ao circo então, rir da pilhéria dos chimpanzés se o nosso político símio, o macaco Tião, com suas macaquices nos mata de tanto rir, arrancando mais de 400 mil votos de outros tantos palhaços????

Definitivamente, como disse Charles de Gaulle "O Brasil não é um país sério". Talvez por isso o STF não tenha  proibido o humor na campanha. Ora, como ficariam as eleições sem estes comediantes?

Analfabetos então, nem se o diga, são tantos que já perdi a conta. Não entendo o espanto em ter um Deputado Federal analfabeto quando os jornais de vários Estados há poucos dias noticiavam que as eleições de 2010 atrasariam em razão da dificuldade encontrada pelos analfabetos em manusear as urnas eletrônicas. Só no Piauí estes eleitores somavam 40% dos votos, isto sem contar outras unidades da Federação onde este índice é ainda maior, como  o Acre, Maranhão e Alagoas. Segundo o TSE ao todo são  900.898 eleitores nesta condição, contando os analfabetos funcionais. Ora, não são esses os nossos pares?????

É justamente por isso que tal qual a palhaçada sempre achei que a parca escolaridade fosse mérito e não demérito em matéria de política. Pelo menos foi o que o Presidente Lula demonstrou em todos esses anos de vida política, chegando a ser eleito pela revista time um dos 25 líderes mais um influentes do mundo e o homem do ano pelos jornais Le Monde e El Pais, sempre a se vangloriar de sua condição de semi-analfabeto, operário, de homem de nove dedos, etc. Por que então agora falar-se no grau de escolaridade do Tiririca?

Se não fosse assim como outras "celebridades" receberiam tantos votos como os jogadores Romário, e Bebeto, os atores Myrian Rios Sterpan Nercessian e o apresentador Wagner Montes?? E não me venham dizer que o baixinho Romário é letrado, pois pelo jeito, este não sabe assinar nem o próprio nome nos cheques para o pagamento de suas pensões alimentícias. Qual a diferença então em termos no Congresso mulheres-melão e mulheres-pera, se a casa já é composta de tantos homens-laranja???

De mais a mais, para que o palhaço Tiririca precisa saber tanto, se estamos acostumados a ouvir da boca de nossos representantes, quando pegos de calças curtas, que estes não sabem de nada? O Lula não sabia nada do Zè Dirceu, a Dilma não sabia nada da Erenice e por ai vai...

De qualquer maneira, se o palhaço tem de ser sabatinado pelo TRE/SP para sustentar sua candidatura, proponho que os temas sejam consentâneos com a vida pública que este terá daqui para frente. Deve o Deputado, portanto, saber as rudimentares operações de álgebra para poder contar os dólares na cueca que receberá do governo como mensalão e ler e escrever em uma agenda, para melhor registro, as propinas que receberá dos banqueiros, construtoras,etc. Quando este vier a aprender o que faz de fato um deputado. (se já não o sabe, pois tem demonstrado que de burro não tem nada)

Burro ou esperto, com uma coisa temos que concordar com o palhaço: pior do que já está não fica.......